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COMUNICAÇÃO

05/11/2026

Campanha da piracema aproxima pescadores e ciência para fortalecer a conservação dos rios

PIRACEMA

Campanha da piracema aproxima pescadores e ciência para fortalecer a conservação dos rios

Lançamento realizado pelo Comitê do Rio Paranaíba, em Itumbiara (GO), reuniu comunidades pesqueiras, pesquisadores e instituições em um diálogo sobre a preservação das águas e o valor dos conhecimentos construídos por quem vive do rio.

Um pescador ficou à deriva no Rio Paranaíba depois que o motor de sua embarcação apresentou problemas. Sem conseguir explicar exatamente onde estava, encontrou ajuda de outro pescador que conseguiu pedir socorro. A pista decisiva para sua localização veio de uma informação aparentemente simples: as espécies de peixes que havia capturado naquele trecho do rio. Com esse relato, o pescador profissional Leivis Carlos Mercedes identificou a região onde ele estava e ajudou a organizar o resgate.

 

A história revela um conhecimento que não se aprende apenas nos livros. É construído na convivência diária com o rio, na observação das águas, das espécies e das mudanças da natureza. Um saber que pode contribuir para a ciência e para as decisões sobre a conservação dos recursos hídricos.

 

Foi para aproximar esses diferentes conhecimentos que o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba (CBH Paranaíba) promoveu, no dia 30 de outubro, em Itumbiara (GO), o lançamento da campanha “Piracema. O caminho da vida.”. Às margens do rio, pescadores profissionais e esportivos, pesquisadores, representantes do poder público e instituições ambientais participaram de uma roda de conversa que colocou a experiência de quem vive das águas em diálogo com o conhecimento científico.

 

Realizada pela primeira vez pelo Comitê, a campanha aproveita o início do período da piracema para ampliar uma discussão que precisa permanecer ao longo do ano: a conservação dos rios depende da qualidade da água, da proteção dos ambientes naturais e da participação de quem conhece e utiliza esses recursos diariamente.

 

O rio como sustento, memória e conhecimento

Presidente da Colônia de Pescadores Z-014 de Itumbiara, Leivis Carlos Mercedes aprendeu a pescar com o pai, os tios e os avós. São cerca de 35 anos de experiência na atividade, que garantiu o sustento da família e a formação dos filhos. Para ele, conhecer o Paranaíba significa saber interpretar suas correntezas, identificar os obstáculos à navegação e compreender as mudanças que acontecem a cada período de cheia ou seca.

“A empresa da minha família é o Rio Paranaíba. Se é daqui que tiro o sustento, tenho de preservar este rio”, afirma.

 

Esse sentimento também aparece na história de Marcos Antônio da Costa, conhecido como Marcos Forró. Nascido em Itumbiara, ele frequenta as margens do Paranaíba há mais de quatro décadas e guarda lembranças de uma relação que começou na infância, quando acompanhava o pai nas pescarias.

“O Rio Paranaíba já matou bastante a nossa fome e a de muita gente que eu conheci. E, além de tudo, traz a beleza que ele dá para a nossa cidade”, conta.

 

Marcos acompanhou transformações na região e participou de ações comunitárias de limpeza do rio. Hoje, compartilha com filhos e netos os ensinamentos recebidos do pai, principalmente sobre o respeito à água. Conta, com orgulho, que um de seus netos gosta de pescar, mas prefere devolver os peixes ao rio.

 

Nas histórias dos dois pescadores, o Paranaíba aparece como fonte de renda e alimento, espaço de convivência e parte da identidade das famílias. As experiências também revelam o quanto a observação cotidiana permite reconhecer características e alterações do ambiente que nem sempre são percebidas por quem passa ocasionalmente por suas margens.

 

Esse conhecimento pode ser especialmente valioso para pesquisadores que buscam compreender o comportamento das espécies e as condições dos ecossistemas aquáticos.

 

O biólogo Wagner Sampaio, doutor em Biologia Animal, representante do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Socioambiental (IDESA) e pesquisador colaborador do Laboratório de Ictiologia da Universidade Federal de Jataí (LabFish/UFJ), apresentou um exemplo concreto dessa colaboração. Em estudos sobre a movimentação dos peixes, pesquisadores utilizam técnicas de marcação para acompanhar seus deslocamentos. Quando os animais são encontrados novamente, a informação repassada pelos pescadores permite identificar por onde passaram e compreender melhor os movimentos relacionados à reprodução, à alimentação e à busca por ambientes adequados ao desenvolvimento.

 

A ciência também ajuda a interpretar aquilo que as comunidades observam no dia a dia. Segundo Wagner, a diversidade de espécies revela muito sobre a saúde dos rios, já que diferentes peixes dependem de condições específicas para sobreviver e se reproduzir.

 

“A piracema depende fundamentalmente da quantidade e da qualidade da água”, explica. Com o aumento natural do nível dos rios durante o período chuvoso, diversas espécies iniciam seus deslocamentos reprodutivos. Entretanto, a poluição, as alterações dos ambientes aquáticos e a presença de espécies exóticas invasoras podem comprometer esse processo e ameaçar a biodiversidade.

 

Os desafios reforçam a necessidade de olhar para a piracema como parte de uma discussão ambiental mais ampla. Respeitar o período de defeso é fundamental, mas a reprodução e a sobrevivência das espécies também dependem das condições dos rios nos demais meses do ano.

 

Da conscientização à participação

O encontro também abriu espaço para discutir o papel dos próprios pescadores na conservação dos ambientes aquáticos e na disseminação de informações.

 

A bióloga Ilce Santos, pesquisadora da Emater Goiás, explicou como as chuvas e as mudanças nas condições dos rios influenciam o comportamento reprodutivo dos peixes. Para ela, os pescadores têm uma responsabilidade importante na orientação de outras pessoas, especialmente por sua proximidade com os ambientes aquáticos. A pesquisadora defendeu que o pescador seja reconhecido como um guardião dos rios, capaz de compartilhar conhecimentos e incentivar práticas responsáveis.

 

Na pesca esportiva, essa contribuição também passa pelo manejo adequado das espécies, pela identificação de peixes não nativos e pela participação em iniciativas de pesquisa e conservação. Ary Soares dos Santos, representante da modalidade, destacou a importância de aproximar o lazer da ciência e da responsabilidade ambiental. Ele também chamou a atenção para a dimensão econômica da atividade, que gera oportunidades de trabalho e renda em comunidades ribeirinhas, inclusive por meio da atuação de guias de pesca.

 

As diferentes experiências apresentadas em Itumbiara evidenciaram a importância de envolver quem vive da pesca, quem a pratica como lazer e quem estuda os rios nas discussões sobre sua conservação. São perspectivas que se complementam e ajudam a compreender os desafios ambientais, sociais e econômicos de um território marcado pela presença das águas.

 

Para o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba, promover esse encontro representa uma oportunidade de aproximar a gestão dos recursos hídricos das comunidades e fortalecer a participação social, um dos princípios fundamentais da atuação dos comitês de bacia.

 

“O Comitê tem muito a aprender com quem vive o rio todos os dias. Os pescadores acumulam conhecimentos sobre as águas, as espécies e as mudanças que acontecem ao longo do tempo. Quando criamos oportunidades para que essas experiências dialoguem com a ciência, ampliamos nossa compreensão sobre os desafios da bacia e fortalecemos a participação dessas comunidades na gestão dos recursos hídricos. É essa aproximação que queremos incentivar, porque a conservação dos rios precisa ser construída com as pessoas que fazem parte dessa realidade”, destaca o vice-presidente do CBH Paranaíba, João Ricardo Raiser.

 

A campanha “Piracema. O caminho da vida.” terá continuidade em diferentes regiões da Bacia do Rio Paranaíba até fevereiro de 2027, com ações voltadas à conscientização sobre o período reprodutivo dos peixes e à importância da preservação dos rios.

 

A campanha “Piracema. O caminho da vida.” será desenvolvida durante o período reprodutivo de 2026/2027, de 1º de novembro a 28 de fevereiro, com ações educativas voltadas aos diferentes territórios da Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba, que abrange áreas de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.

 

Estão previstas mobilizações em Araguari (MG), Brasília (DF) e na região da bacia do Rio Santana–Aporé (MS), dando continuidade ao movimento iniciado em Itumbiara. A proposta é incentivar o respeito às regras de pesca, ampliar o acesso à informação e fortalecer a consciência de que a conservação dos rios depende de atitudes permanentes, dentro e fora do período da piracema.

 

O período de reprodução dos peixes tem início e fim definidos. O compromisso com a conservação das águas, não. Ao reconhecer os saberes de quem convive com o Paranaíba e criar oportunidades para que eles dialoguem com a ciência, o Comitê abre caminho para uma gestão cada vez mais próxima das comunidades e da realidade dos rios que pretende proteger.


 

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